Como em outras edições, a Latinoware deste ano mais uma vez preparou um espaço especialmente dedicado à área da educação. Além de membros do nosso grupo e seus convidados, o evento também irá contar com a participação de grupos de outros países da América Latina, que estarão discutindo a integração entre educadores e usuários de software livre de toda o continente. A ideia principal é derrubar as fronteiras nacionais e linguísticas na divulgação e no suporte ao uso educacional do software livre.
No último dia do evento (21, sexta-feira), o tema ganha destaque na programação da Latinoware com a Trilha da Educação. Confira a programação completa, e, na sequência uma entrevista com Frederico Guimarães, um dos principais entusiastas sobre a educação na plataforma Linux.
10h – LibrEdu: Educação e Software Livre integrando a América Latina/ LibrEdu: Educación y Software Libre integrando América Latina
Frederico Gonçalves, Guimarães, Laura Marotias e Pablo Javier Etcheverry
11h – Formando professores no uso de Softwares Livres – A experiência de Fortaleza
Patrícia Fernandes Costa Martins
12h - Apresentação de material didático, produzido com o uso de software livre
Marinez Siveris
13h – Tem Pinguim na Rede – Dez anos de Linux Na Escola
Maria Suzete Neumann
14h – Gcompris na Recuperação da Habilidade Motora para Uso do Mouse em Adultos
Ana Cristina Geyer de Moraes
15h – Las cuatro libertades em La Escuela Primaria
María Eugenia Núñez
16h – Teorias de Ciências: Um Outro Argumento para o 'Livre' em Software Livre
Ole Peter Smith
Frederico, primeiro uma pergunta bem básica: Por que a tecnologia usada na educação deve ser livre?
Em primeiro lugar, se estamos discutindo educação, estamos falando de conhecimento e na movimentação desse conhecimento entre as pessoas. Pois bem, como é possível uma troca de conhecimentos usando software proprietário quando uma das características básicas desse modelo é justamente impedir o seu livre compartilhamento? Se esse tipo de software foi feito para ser simplesmente usado, do jeito que ele foi construído?
O software livre nos oferece oportunidade não só de usar as ferramentas do jeito que quisermos, como também alterá-las para nos atender plenamente e compartilhá-las com qualquer pessoa. Já pensou como seria injusto você aprender a usar um software super bacana e não poder compartilhá-lo plenamente com outras pessoas?
Além disso, temos também as questões no âmbito mais filosófico. O modelo de software livre apresenta algumas características que são muito interessantes à educação: aprendizado colaborativo, produção coletiva, compartilhamento de resultados... ou seja, tanto a educação quanto o software livre têm muito a aprender um com o outro.
Na Latinoware e em outros eventos, a ênfase acaba sendo maior para o software livre, mas o que tem a dizer sobre a robótica e o hardware livre como elementos educacionais?
Bom, o software é uma das pontas do processo. Devemos lutar por um "modelo tecnológico livre", em que todo o processo possa ser livremente apreendido e compartilhado. Nesse aspecto, tanto a robótica quanto o hardware livre (quanto os próprios elementos da cultura livre) são peças-chave. Em particular a robótica livre, pois ela nos permite "ver" processos que, muitas vezes, têm um caráter muito abstrato quando tratados somente no âmbito do software. Portanto, acho que já passou da hora de começarmos a estimular mais a liberdade também fora dos softwares. Inclusive, mesmo com todas as dificuldades que enfrentamos, acredito que a luta pelo software livre já está razoavelmente definida. Agora é hora de começarmos a libertar os hardwares. 
E antes de irmos para estas tecnologias tão presentes hoje, sabemos que nem todas as crianças latinoamericanas nascem com um tablet nas mãos. Como motivar o gosto por conhecimentos abertos desde cedo, mesmo em crianças que não têm condições de descobrir prematuramente um computador de qualquer tipo?
Essa é uma pergunta pertinente, pois temos a tendência a vermos a realidade filtrada pelo que está à nossa volta. Acreditamos, por exemplo, que Internet é algo universal. E aqui no Brasil, mesmo próximo aos grandes centros, existem diversas defasagens, tanto de infraestrutura quanto de qualidade dos serviços prestados. Portanto, antes de entrarmos na discussão do software propriamente dito, temos que pensar como lidamos com o conhecimento.
Os sistemas de ensino deveriam ser estruturados de forma a estimular não só o aprendizado como também o compartilhamento do que se aprende. O conhecimento deveria ser produzido por todos e não simplesmente repassado pelos professores. Dessa forma, quando ser "horizontaliza" a relação, fica mais fácil todos colaborarem. A partir daí, podemos partir para questões mais práticas, como montagem de aparatos tecnológicos "artesanais" (como câmeras fotográficas "pin hole", artefatos robóticos a partir de sucata e outras coisas mais).
Feito isso, devemos partir para a divulgação desse conhecimento produzido coletivamente. Blogs pessoais (ou coletivos), fóruns de discussão e redes sociais são bons lugares para isso. E o acesso nem precisa ser pessoal. Pode-se usar para isso o laboratório de informática da escola, ou algum telecentro ou mesmo a lan house. É bom considerar também que não precisamos depender da Internet pra isso. Apresentações em rádios comunitárias (ou, quem sabe, MONTAR uma rádio comunitária?) e mesmo em praças públicas podem não ter o glamour e o efeito "global" da Internet, mas funcionam muito bem para dividir com outras pessoas o que está sendo feito. E, no final das contas, é isso o que interessa: produzir e compartilhar. A essência do software livre está aí. Mesmo que não tenha nenhum software envolvido.
(publicado originalmente no blog do Latinoware)